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Piolhos

Agosto 18, 2011 Deixe um comentário
Quem não lembra do sentimento de Crise de 29 quando o assunto era piolhos?- Thais! Sabe a Maria da 3ª B?
– Sim!? – Não, eu não sabia.
– Ela está com piolho! Cuidado com ela!

Assim era iniciado o terror! Todas as meninas da escola poderiam ser a Maria da 3ª B! Eu não teria mais nem um minuto de tranquilidade!

Uma vez eu fui no banheiro, antes de sair, tinha que lavar as mãos e uma menina estava na pia (que tinha uns 3 metros de comprimento). Era época de piolhos. E ela não terminava nunca! Provavelmente era a Maria da 3a. B! E estava ali no banheiro porque não queria ficar na sala de aula coçando a cabeça! Preciso dizer que eu não lavei a mão até que ela saísse do banheiro?

Mas imagina se eu pegasse piolho? E se todo mundo soubesse? E se minhas amigas não quisessem mais ficar comigo? E no exato momento que eu estava aterrorizada minha cabeça começava a coçar. Isso faz uns 15 anos e está coçando enquanto eu escrevo esse post.
Mas eu nunca me rendia à coceira. Ah não. Jamais! Se eu estivesse com piolhos falaria para minha mãe avisar que eu estava doente e faltaria uma semana! É claro que eu não tinha a liberdade de escolha se eu ia ou não à escola, mas sempre gostei de imaginar que tinha…
A melhor história sobre piolhos que eu tenho é uma menina que chamarei aqui de Dentão.Dentão era uma garota comum de 12 anos, 6ª A, morena, olhos amendoados, cabelos longos e lisos, magra, com um problema dentário absurdo. Posso afirmar, com absoluta certeza, que Dentão não tinha a capacidade de encostar o lábio superior no inferior.

Dentão parou de conversar comigo no ano anterior por divergências de conceitos de beleza e estética. (Da série “Coisas que a Popularidade Define”: Eu era considerada feia, ela não.)

Por algum motivo durante uma aula da 6ª série Dentão sentou no banco vazio do meu lado, meio chorando.

– O que aconteceu?
– Ninguém quer conversar comigo! Não sei o que está acontecendo e as meninas nem respondem o que eu pergunto depois do intervalo!

Senti um prazer mórbido naquela frase.

– Você não pode ir lá ver com elas o que está acontecendo?
– Claro! – estava verdadeiramente preocupada, ela era minha amiga até o ano anterior e eu nunca fui de guardar rancor.

Então eu descobri. Dentão estava com piolho. Ótimo, mais um motivo para ninguém querer falar comigo! Eu andava com a piolhenta! Éramos tão velhos para ter piolhos… Todas as amigas dela não quiseram comentar nada, então eu fui o tio bêbado que conta pros sobrinhos que Papai Noel não existe na véspera do natal.

Como sempre, dei aquela olhadinha pra cabeça, com medo. E adivinha? Eu vi uma coisa marrom clara, pequena, no topo da cabeça dela. A cena nunca mais vai sair da minha memória. Aquilo saindo de dentro dos cabelos e voltando. Nojo eterno.

Enfim, eu contei, a Dentão chorou absurdo porque a coordenadora da escola não deixou ela ir embora mais cedo, no horário ela foi pra casa e voltou apenas uma semana depois, sem piolhos.

Algumas vezes eu me pego preocupada com algum problema, me estresso e me entristeço. E depois percebo que era algo que realmente precisava de uma ação, mas não era algo grave.

É bom sempre medir nossos medos e perceber se não estamos nos escondendo em casa durante uma semana enquanto só o que precisamos/podemos fazer é usar um shampoo e pentear os cabelos com pente fino por algumas horas.

Algumas problemas são grandes e valem a nossa preocupação, já outros, bom, eles são apenas piolhos.